quarta-feira, 20 de agosto de 2014

De Dom Quixote, tramas e doces

Foto Nadiella Monteiro

Desce um fio invisível
que sustenta intrincado novelo
Tece, a vida, uma estrela de mil pontas
bela e multicolorida
ela se sustenta no ar
mas queima dentro do peito
respeita todas as diversidades
entende rebeldias,
mas não aceita preconceitos
Uma mulher encantada
e que nunca foi uma das Parcas,
zela pelo fio invisível que sustenta o novelo
Olha o trabalho das Moiras,
Encanta-se com Cloto que trabalha até a Nona lua,
Admira o trabalho de Láquesis que começa na lua Décima
Mas meticulosa segura a mão de Átropos
Para que a tesoura precocemente não fira o fio
Guardo dentro do peito uma estrela de mil pontas
Entre as paginas amareladas do livro do meu estradar
Tanto caminho e tanto sol
Tanta trilha e tanto canto
Tanto por fazer e já não aguentar
A estrela já não se sustenta
Quer sair e ser alta, brilhar
Mas o peito oprimido e pesado 
Quer se render à sombra
Quer lamber feridas
Quer se fechar
A estrela multicolorida quer ganhar espaço
E o rio Capibaribe nesse ponto não dá Val
A vida Severina quer se render
Para ver se, como Macabéa, encontra sua hora de estrela
Láquesis vai perdendo o interesse pela trama
E Átropos, cada vez mais ansiosa, quer o fio cortar
Com uma palavra encanta,
Com gesto singelo
Com uma imagem figurada
Dulcinéia me abarca
Envolve
Abraça
Desvia a tesoura de Átropos
Instiga Láquesis a seguir
E faz a Roda da Fortuna, por mais um tempo, voltar a girar

Santa Rosa, Pará de Minas, 05 de abril de 2014.



pra você, Santa Rosa
O dom de Quixote é criar, 

Do desterro e do deserto, a vida. 

Ainda que também crie monstros de moinhos, 
Cria beleza onde não há.

Então, que sua espada roube os fios e escolha a trama:
É doce sua Dulcinéia
E tem retorno o corte de Átropos.

Gira a roda e a água cresce em madeira, que nutre o fogo,
Que vira terra, que produz o metal, que gesta e pare a água,
Que faz, da décima lua até agora, a roda da sorte girar.
E girar.
E girar.

A vida Severina é dura e seca,
Mas alimenta-se dela mesma:
Vida, dura, seca.
E permanece a caminhar.

Nadiella, BH,  05 de abril de 2014


Não vejo o fio
Nem a trama
Vejo cores
Arco íris de bala retorcido
Lembranças de infância
Onde foi que as esquecemos
Ou as guardamos
Quando escurecemos aquele primeiro olhar
Onde tudo é cor e vida
Onde se esconde aquela sensação
De plena felicidade
Onde repousa o ano novo
Sem data
Acho que se ouvirmos baixinho
E procurarmos no espelho
Sentiremos o gosto de doce


Ana, BH, 06 de abril de 2014



Um comentário:

  1. Começa o turno, guarda de três
    mosqueteiros chamados em ordem:
    Idael, Na, Ana
    Christiano, Di, Cris
    Almeida, Ella, Tina
    Santa, Monteiro, Bahia
    Rosa, Jardim, Paiva
    e vão se seguindo as rondas
    e vão se seguindo as horas
    cada triptico menos militar que o outro
    a academia que os formou lhes deu patente
    mas a forja não forte o suficiente para enformar-los
    mantiveram suas formas
    seus vieses
    Na, Idael, Ana
    Di, Christiano, Cris
    Ella, Almeida, Tina
    Monteiro, Santa, Bahia
    Jardim, Rosa, Paiva
    Os turnos se sucedem
    os trios de mosqueteiros marcham
    "soldados cabeça de papel"
    e o papel se enche de poesia
    e o papel se enche de artesanato
    e o papel se enche de confeitos
    e o quartel se enche de arte
    como na academia explicitamente não se vi
    Do setor dos loucos, filósofos, comunistas e poetas
    alguém observa e sorri
    talvez escreva poemas mentais
    deleitando-se com seus mosqueteiros gauches
    que passaram a graduação se sentindo errados
    sem perceber que a forma é que era o erro
    o velho já quase reformado observa alegre
    o rondo da guarda dos três mosqueteiros
    Ana, Na, Idael.
    Cris, Di, Christiano
    Tina, Ella, Almeida
    Bahia, Monteiro, Santa
    Paiva, Jardim, Rosa
    A guarda dos mosqueteiros gauches
    segue seu rondo alegre e artístico
    panis et circus veterinus
    poesia, gastronomia e fotografia
    tornando mais rico o mundo
    lutando por justiça e fraternidade
    três mosqueteiros gauches
    três quixotes em seus queridos rocinantes
    enfrentando seus moinhos de vento internos
    e se fazendo de fortes para fora
    três mosqueteiros que são três centurias
    e apenas três escudeiros uns dos outros
    brandindo duas colheres de pau
    suas câmeras fotográficas
    suas canetas
    sabendo que são:
    um por loucos, e loucos por cada um.

    Varginha, 20 de agosto de 2014

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